terça-feira, 24 de março de 2026

Revisando os modelos: Precisamos de um contrapeso para Hélio

O Náutico é regido, hoje, por um modelo de "Head Manager". Em português claro, significa que o grande responsável pelo futebol do clube é o treinador Hélio dos Anjos e seu filho, Guilherme, que também tem "assinado" (na escalação, por exemplo) como treinador.

O modelo é novo somente no Náutico e, talvez, no Nordeste. No Grêmio, foi adotado com Renato Gaúcho nos títulos da Copa do Brasil (2016) e Libertadores (2017), alavancado pela gigantesca idolatria que a torcida tem por seu ex-jogador. Na Europa, Sir Alex Ferguson comandou com mãos de ferro o futebol do gigante Manchester United durante 27 anos, com 38 troféus. No River Plate, Marcelo Gallardo alcançou patamar similar em sua primeira passagem vitoriosa. Contudo, seu retorno em 2024 — a "Last Dance" que se encerrou no mês passado — ilustra os riscos do modelo: milhões de dólares foram gastos sem melhora expressiva, culminando em uma sequência de maus resultados e no pedido de demissão do treinador.

Lembro, aos mais atentos, o movimento semelhante de Hélio dos Anjos após a derrota em casa para o Cruzeiro (que vinha muito mal, treinado por Luxemburgo), quando também pediu sua própria demissão.

Os defensores desse modelo argumentam, com razão, que ele pode trazer um sucesso centralizado. Por outro lado, os críticos ferrenhos nos bastidores apontam, na mesma linha do ex-presidente Alexandre Homem de Melo (AHM), os perigos de se "entregar as chaves" do clube a um funcionário que, naturalmente, não possui o mesmo vínculo passional que um abnegado.

Aí está o cerne do atual debate nos Aflitos: um dirigente que entende de futebol e é um funcionário, ou um apaixonado que entende pouco (ou apenas acha que entende)?

Parece claro que colocar um amador em uma área sensível, movimentando um orçamento milionário, é uma temeridade. Para ser justo, porém, o diretor abnegado muitas vezes coordena uma equipe de profissionais de mercado e, com um organograma organizado, não toma decisões sem fundamento. Ao menos, na teoria. Na prática, se ele tem o poder da caneta, pode dobrar a aposta e contratar um jogador inapto, como no caso de Douglas Borges no início de 2025.

Ainda assim, Hélio, como "Head Manager", não pode ser blindado de críticas. É evidente que ele é um profissional muito mais capacitado do que Diógenes Braga ou AHM, mas, assim como os dirigentes cometeram diversos erros baseados em teimosias incompreensíveis no passado, Hélio tem as suas próprias idiossincrasias — e começamos a vê-las entrar em campo.

Na prática, a ausência de um contrapeso já reflete no elenco e nas quatro linhas. A possível contratação de Victor Andrade, por exemplo, é incompreensível; seria um nome ruim até para a Série C. É preciso lembrar que, no ano passado, o Náutico também trouxe a esquecível versão de Marco Antonio, que pouco ou nada agregou e teve o seu custo.

Hélio começou também a fazer mudanças extremamente abruptas no time. A entrada de Auremir foi a primeira, o esquema bizarro do jogo passado contra o Criciúma foi a segunda, e a sinalização de mudança envolvendo Yuri Silva e Igor Fernandes é a terceira. O torcedor tem o direito de questionar: essas movimentações são tão diferentes, ou menos criticáveis, do que a contratação de um Douglas Borges ou a insistência tola em "quatro zagueiros de alto nível"?

A questão central não me parece ser o modelo em si, mas a sindicabilidade do trabalho. Enquanto abnegados são regidos por apoios políticos, profissionais devem ser tratados com profissionalismo. Lembro do jornalista Mauro Cezar Pereira, na saída de Domènec Torrent do Flamengo, revelar a frustração do espanhol pela ausência de alguém do clube para debater suas opções e crescer com o diálogo.

Sinto que o Náutico padece do mesmo problema. Hélio é, certamente, o melhor treinador da nossa prateleira de mercado, mas, se entrar em uma espiral de teimosia, qualquer um será melhor do que ele comandando um time com jogadores de fundo de elenco.

A proposta aqui é simples: por que não unir os modelos, respeitando a autonomia de Hélio? Por que não colocar alguém, seja como auxiliar ou dirigente, para auxiliar o treinador? Não digo confrontar ou perturbar, digo debater. Se o presidente Bruno Becker, como a média dos dirigentes, não é um especialista tático, ele se torna refém da opinião da comissão técnica — e isso não é saudável. O ideal seria ter alguém que reportasse à presidência com o olhar do clube e, simultaneamente, dialogasse com a comissão para entender as escolhas e, quem sabe, demover o técnico de opções claramente equivocadas.

Apropriando-me de uma frase recente do Chapo, no Timbucast: hoje, o melhor treinador para assumir o Náutico chama-se Hélio dos Anjos. Ajustar a rota é, sem dúvida, o melhor caminho. Mas, se há apenas uma pessoa gerenciando o mapa e segurando o volante, não parece razoável esperar uma mudança de direção.

Para que isso funcione, sugiro perfis como Rodolpho Moreira, alguém com perfil de aprendizado, ou Joaquim Costa, com seu vasto conhecimento do Náutico e do mercado. Até mesmo um nome mais jovem para ser lapidado, como o ex-diretor da base Nelson Melo, seria de grande valia para o futuro alvirrubro.

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